• 16/09/2015// Por: Camila Pavani

    Manda Nudes – Um guia sensual de segurança digital

    nudes

     

    O celular vibra. Pode ser spam da operadora, corrente de WhatsApp, mas é um pedido: MANDA NUDES! Você ri, porque a frase é mesmo hilária e a ideia é animadora. Um calorzinho gostoso te sobe pelos fundos e a única coisa em que você consegue pensar é em ir ao banheiro, arriar as calças e aproveitar o espelho para fotografar todos os excelentes ângulos do seu corpo nu.

    Arriscaríamos dizer que a grossa maioria de nós deseja ardentemente enviar e receber nudes (todos os dias, o dia inteiro), mas o máximo que conseguimos empreender até agora, salvo raras/várias exceções, foi transformar o pedido em meme e fazê-lo circular pela rede como a boa piada que também é. Afinal, ninguém quer fazer algo de que se arrependa depois, muito menos correr o risco de ser exposta num episódio vergonhoso de vingança de ex.

    Idealmente, os nudes da madrugada profunda – e mesmo vários daqueles do meio dia – se autodestruiriam antes de que alguém se apropriasse e fizesse com essas imagens algo que não queremos. Obviamente o assunto é muito mais sensível pra mulheres e pessoas trans — pela ampla assimetria de poder entre gêneros que buscamos combater todos os dias com paixão e tesão.

    Mandar nudes é um direito, o de decidir sobre o próprio corpo e imagem que possa ser mais uma prática de resistência prazerosa, um jeito de agir e se posicionar contra o machismo e a heteronormatividade (considerar que o “normal” é a heterosexualidade) que não seja necessariamente só brigando, mas também se divertindo.

    Em um mundo ideal, esse direito seria respeitado. Mas, como a realidade é bem diferente disso, resolvemos compartilhar estratégias e ferramentas que podem nos ajudar a espalhar nossos nudes por aí de uma forma um pouco mais segura. Aqui vão algumas dicas:

     

    1: AUTOCURTIÇÃO

    Use a câmera do seu celular pra trabalhar seus melhores ângulos. Ninguém melhor que você mesma pra descobrir esse caminho. Fotografe intensamente e tenha a confiança de que não há regras ou constrangimentos estéticos em jogo. Um nude não precisa ser necessariamente uma foto pornográfica ou das partes mais imediatamente associadas ao sexo. No papel duplo de câmera e modelo, é você quem diz o que vale e o que não vale. Uma câmera fotográfica pode ser uma verdadeira revolução pra sua autoestima e autoconhecimento. Sinta-se totalmente confortável e sexy.

     

    2: ANONIMIZE

    Caso os nudes sejam destinados a alguém da rede, principalmente a alguém que você não confia totalmente, é bom tomar cuidado para não mostrar o rosto, tatuagens, marcas de nascença, cicatrizes, móveis da sua casa etc. A internet fez de todos nós stalkers e você nunca saberá os limites da síndrome de detetive de alguém. Existem aplicativos, como o Obscuracam, que pixelizam rostos e alteram detalhes da foto que não queremos mostrar.

    Toda vez que você tira uma foto, ficam marcados dados de localização, horário, tipo de disposivo e outras informações que podem servir para te identificar – são os chamados metadados. Se esse tipo de informação for muito sensível para você, além do Obscuracam, existem editores de metadados, como o Photo Exif Editor (disponível para iPhone e Android), que apagam ou modificam essas informações e são fáceis de usar.

     

    3: USE CANAIS SEGUROS

    Lembre-se que a maioria dos apps de mensagem salva as fotos enviadas no celular de quem recebe ou permitem screenshot. E esse é o jeito mais óbvio de ter seu nome e/ou seu número de telefone associado a um nude.

    Evite mandar nudes por SMS, iMessage, Whatsapp, Telegram, Facebook (pelo amor das deusas), Tinder, Happn ou qualquer outro aplicativo de chat que vá deixar o arquivo ser facilmente salvo por quem recebê-lo. Também é melhor não utilizar aplicativos que não usam criptografia ponta a ponta, já que isso facilita que terceiros interceptem o canal e bisbilhoteiem o que não devem.

    Aplicativos como o Confide e o Wickr têm esse tipo de criptografia e fazem que suas fotos se autodestruam imediatamente depois de lidas – o que não acontece, por exemplo, no Snapchat, que requer número de telefone para o cadastro e mantém as imagens no ar por 24h.

    Com algum malabarismo, é possível printar a imagem no Confide e no Wickr, mas você será avisada caso aconteça. No Confide, a foto só é revelada parcialmente conforme você desliza o dedo sobre ela, o que ajuda a dificultar a identificação. Com o aviso de print, você fica sabendo quem tentou trapacear.

    Esses dois aplicativos permitem que você se cadastre sem associar seu número de celular. No Wickr, o cadastro é liberado usando apenas um nick ou pseudônimo (um oásis que nos lembra que a internet não precisa ser só uma extensão da nossa vida fora dela).

    No Confide, é preciso cadastrar um email. Use uma conta alternativa, dissociada do seu nome, do seu email de trabalho e de tudo que possa levar à sua identidade. Lembre-se que associar sua conta com o Facebook ou Gmail automaticamente associará seus nudes a elas e aumentará significativamente as chances dos seus primos trombarem com eles.

    Um aplicativo realmente bom para nudes seguros combinaria: encriptação ponta a ponta; bloqueio de screenshot; fotos e mensagens autodestrutivas nos dispositivos e servidores; login sem necessidade de email, telefone ou nome real; bloqueio da lista de contatos; e código aberto do app – combinação que não encontramos em nenhum dos aplicativos citados.

    Tudo que testamos até agora tem suas vantagens e riscos, e o importante é você conhecê-los e saber o que está em jogo na hora de usá-los. Mais informações sobre esse tipo de ferramenta podem ser encontradas nos canais da Oficina Antivigilancia.

     

    4: CUIDADO COM SEU CELULAR

    É muito importante lembrar que todas as imagens que registramos com o celular ficam gravadas em sua memória e que, se alguém tiver acesso a ele, de nada adianta o seu malabarismo de compartilhamentos discretos.

    Por isso, use senhas fortes (de preferência usando palavras longas, em línguas diferentes, com números e alternância entre caixa alta e baixa) no bloqueio de tela e, se possível, criptografe seu telefone (Android e iPhone).

    Não forneça sua senha a ninguém e sempre desconfie se alguém em quem você não confia te pedir o seu celular emprestado. Uma pessoa mal-intencionada pode roubar tuas fotos e instalar apps que te “espiam”. Não queremos que nossos aliados celulares se voltem contra nós.

    Tome cuidado ao usar conexões WiFi compartilhadas em lugares públicos; elas podem ser armadilhas para roubar seus dados. Por isso, evite usá-las pra mandar nudes e, se for inevitável, procure sites e apps que fornecem conexões criptografadas (identificados com httpS na barra de endereço) ou baixe um aplicativo de VPN, como o Bitmask (disponível para Android) ou o OpenVpn.

    Por último, não se esqueça que toda foto enviada para um app é enviada para um servidor de uma empresa, que seria como um grande armário ao qual você não tem acesso, mas a empresa e o governo sim. Apesar de muitos aplicativos prometerem segurança, sabemos que vazamentos de informações podem acontecer (vide Ashley Madison e Snapchat).

     

    5: DELETE – OU ESCONDA BEM

    Aceitar a efemeridade da vida e apagar tudo imediatamente depois de usar é a forma mais segura de evitar surpresas. Mas guardar os nudes em uma pasta criptografada no seu computador também é uma boa opção.

    Lembre-se de que seu celular pode criar backups das suas fotos em vários lugares – rolo da câmera, pasta de fotos apagadas recentemente, programas de armazenamentos na nuvem etc. É sempre importante checar cada um desses recônditos. Um aplicativo que ajuda a apagar os traços de seus arquivos é o Ccleaner, disponível para Android, Windows e Mac OS.

    Se for salvar suas fotos no computador, assegure-se de que a pasta está criptografada e que só você tem acesso à senha (ou frase-passe). No Windows, um jeito fácil de trancar as pastas é usar o 7zip. Essa ferramenta comprime os arquivos com encriptação AES 256-bit e é o mínimo que você pode fazer para disfarçar fotos que não devem vazar. Para evitar que as pastas ou arquivos sejam descompactados por alguém que não deve, é importante colocar a senha depois de comprimi-los.

    No Windows, você ainda pode usar o BitLocker. Ele vai encriptar seu disco todo, não só as pastas secretas, mas isso não é de todo ruim. Com esses softwares, você garante que não vai ser a próxima Carolina Dieckmann – enviar seu computador pra manutenção e ter suas fotos vazadas no dia seguinte.

    Se você está no Linux, o Tomb te deixa escolher as pastas e arquivos que serão criptografados, mas não garante a segurança dos arquivos enquanto passam de um dispositivo pra outro por e-mail, por exemplo.

    Mas o estado da arte – que protege sua bunda até da NSA – é usar a suíte PGP. Tem pra Windows, Linux ou MacOs. É só criar as chaves, guardar sua chave privada, distribuir sua chave pública e usar sempre que transmitir ou guardar seus arquivos.

     

    6: RESINIFIQUE SEU CORPO NU

    Ter seus nudes publicados pode não ser necessariamente ruim, desde que isso seja uma decisão sua. Se é você quem publica e banca essa atitude, ninguém deveria poder usar isso contra você. Mas ainda não chegamos lá e o machismo e o moralismo ainda podem agir de forma explícita ou subterrânea.

    Além de maravilhosos, nossos nudes também podem servir para provocar uma discussão importante sobre nossos corpos e nossos desejos de como olhá-los, exibi-los e usá-los. Se apropriar e reSsignificar a linguagem pornográfica – avassaladoramente machista – para nosso próprio protagonismo e prazer tem que ser um caminho possível.

    Artistas visuais como Aleta Valente (@ex_miss_febem no instagram) têm explorado essa possibilidade – expondo inclusive o próprio nome e rosto – e os resultados, ótimos, são tão amados quanto odiados por aí.

    No caso de terem publicado seus nudes contra sua vontade, há formas de recorrer. A Constituição Federal assegura os direito da personalidade. Entre eles, os direitos à privacidade, imagem, honra e dignidade. Neste sentido, legislações mais específicas como o Código Penal (crimes contra a honra), a Lei Maria da Penha (violência psicológica) e o Marco Civil da Internet podem te ajudar. Você pode respirar fundo e recorrer à justiça para tentar retirar o conteúdo da rede e ser indenizada pelos danos sofridos. Conhecer uma advogada sempre ajuda.

    Se este guia te fez parar o trabalho pra mandar uns nudes, lembre-se destas humildes palavras:

     

     

    Pose, fotografe, encripte e peça a proteção da nossa senhora das perseguidas.

     

     

    Postagem lá do Brasil Post


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Taty Ferreira

Blogueira

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Olar bandiputo!!!

Natural de Araxá/MG, tem 30 anos, é blogueira, youtuber, empresária, escritora, modelo, atriz e mentirosa. Produz conteúdo para a internet desde 2009 e ama o fato de poder trabalhar usando pijama. Tem uma missão de que é lembrar as mulheres de depilarem seus bigodes. Você, mulher, já depilou seu bigode essa semana?