• 30/01/2020// Por: Taty Ferreira

    História de um Casamento – O Filme

    Agora teremos resenhas de filmes aqui nesse blog!

    Quem vai escrever essa coluna de resumo e opinião é o cara que conheço que mais é viciado nas produções Hollywoodianas, (porém não apenas), menino Aureo Toledo.
    E pra começar com prato cheio hoje ele vai nos contar suas impressões sobre o filme História de um Casamento (Marriage Story). Estão prontos?
    Então vem!

    Direção: Noah Baumbach

    Duração: 2h 16min

    Gênero: drama

    Disponível: Netflix

    Conheçam Charlie e Nicole Barber. Charlie e Nicole são dois jovens profissionais, ao redor dos 30-40 anos, vivendo em Nova York e tentando construir uma carreira no mundo do teatro. Charlie foi uma estrela ascendente, tendo começado a chamar a atenção a partir dos seus 20 anos. Nicole também é uma profissional promissora: logo no início de sua carreira foi protagonista de um filme de sucesso que poderia lhe abrir várias portas no mundo do cinema. Em determinado momento de suas trajetórias, se conhecem e iniciam um relacionamento amoroso

    Contudo, quando suas vidas se encontram, decisões precisam ser tomadas para que o relacionamento caminhe. Nicole, com a carreira começando em Los Angeles, deveria abrir mão desse começo promissor? Ou seria Charlie quem deveria renunciar do espaço que estava começando a galgar em Nova York. Vemos logo no início do filme que, nesse momento, a solução encontrada pesa mais para o lado de Nicole, que coloca em suspenso sua carreira em Los Angeles (com uma incerta promessa de que em algum momento de suas vidas passariam temporadas lá), e decide se unir a Charlie no esforço de construir a companhia de teatro de seu marido. Daí decorre todo o desenvolvimento da história, que se inicia justamente com outro impasse: como encerrar um relacionamento que parece não se sustentar mais? Não fossem as particularidades do roteiro, imagino que muitos de nós conseguiriam se identificar com situações como esta.

    Não há nenhum grande spoiler até aqui. Tudo isso nos é apresentado na belíssima cena inicial de História de um casamento, novo filme do diretor Noah Baumbach. Estrelado por Scarlett Johansson e Adam Driver, o filme insere-se numa ampla tradição de filmes sobre problemas que emergem de casamentos. Há alguns pontos de destaque que merecem ser destacados, contudo. Tanto Scarlett Johansson quanto Adam Driver estão excepcionais como os protagonistas da história. Sobre Driver, em particular, há de se destacar a sutileza de sua atuação. Vemos no filme que é Nicole quem toma a iniciativa para o divórcio, e Charlie tem que lidar com a transformação de sua vida, dado que a estruturação de sua família até então girava em torno de si e que, para ele, parecia ser algo natural – o que fica claro inclusive nas diversas vezes em que afirma que sua família é nova-iorquina. Há toda uma tensão em sua atuação, pois ao longo de todo o tempo o personagem parece pronto a explodir – o que em duas ocasiões ocorre (aí já seria spoiler dizer em que momentos isso ocorre!). Scarlet Johasson não fica atrás. Sua personagem é marcada pela coragem, mas também pela insegurança. Coragem por tomar a decisão de pedir o divórcio e dar o pontapé em todo o processo. Insegurança pois, a despeito de todas as justificáveis razões para o divórcio, inescapavelmente há a dúvida se a decisão é a mais acertada, assim como se esta mesma decisão não machucaria muito alguém por quem ela tem muito carinho.

    Chama-me muito a atenção o tema central do filme e como ele é trabalhado pelo roteiro. Não se trata apenas de encerrar um relacionamento, em que após todas as tratativas cada um seguirá seu rumo. Esta opção é descartada devido a presença do filho do casal, Henry. Logo, talvez a forma mais precisa para descrever o tema central do roteiro de História de um casamento seja justamente como transformar um relacionamento. Ambos não querem estar mais juntos, porém não abrem mão de serem pai e mãe presente de Henry. Ademais, o divórcio não se iniciou com brigas homéricas entre o casal, que poderiam culminar em situação em que pai e mãe apenas não falariam mais entre si, procurando restringir ao mínimo possível a convivência apenas em consideração ao filho. Esta conjuntura complexa é em boa medida o estopim de todo o processo transformativo da relação entre Nicole e Charlie, produzindo não apenas cicatrizes materiais na vida de ambos, mas sobretudo as feridas emocionais que tenderão a marcar a personalidade de cada um.

    Esta fase conturbada é exemplificada em diversos momentos do filme, seja nas conversas com os advogados, no embate frente ao juiz, assim como na memorável cena em que Charlie e Nicole discutem calorosamente sobre a situação. Há cenas muito sutis, como o momento em que, mesmo já separados, Nicole se dispõe a cortar o cabelo de Charlie após ele ir ajudá-la com um problema no portão. Com cenas como essa, o filme nos aponta como um processo de transformação é inescapavelmente dolorido e ambíguo, nos obrigando a nos mover de nossas zonas de conforto e incitando-nos a caminhar rumo ao inexplorado. A transformação de um relacionamento tal qual apresentada no filme, talvez diferentemente de um fim de relacionamento, implica posicionar a pessoa que nos permitiu amar e odiar em proporções gigantescas de uma forma diferente daquela que até então ocupava. Implica reconhecer que um ciclo se encerrou, que outro se inicia, mas que de uma forma ou de outra aquela pessoa ainda permanecerá ali. Todo esse processo resulta em outra cena muito tocante, quando Charlie decide cantar (isso mesmo, cantar!) em um bar após conversa com os amigos.

    Não há como encerrar sem mencionar o personagem Bert Spitz, o primeiro advogado designado por Charlie para representá-lo, interpretado por Alan Alda. Tendo passado por quatro casamentos e três divórcios, Bert talvez seja o único que no meio de todo o turbilhão parece ver além. Ao tentar dissuadir Charlie sobre determinado encaminhamento, Bert afirma que todo o arranjo para que possa ver o filho, assim como toda aquela situação, é temporária. Não valeria a pena aprofundar-se em uma disputa que traria consequências materiais e emocionais difíceis para ambos. O argumento de Bert, autoevidente para muitos, é de difícil absorção para outros tantos: a situação é temporária pois Henry irá crescer e em determinado momento de sua vida é ele quem deverá encontrar seu lugar no mundo. Ele dará início a um outro processo de transformação e a depender, as chagas criadas agora podem ter impacto nesse futuro.

    Há um texto que circula na internet e é atribuído a José Saramago, prêmio Nobel e famoso escritor português, que diz que filhos são empréstimos para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos. Seria também um ato de coragem, pois estaríamos expostos a todo tipo de dor e incerteza de estar agindo corretamente, assim como todo o tempo teríamos medo de perder algo tão amado. Como diz o texto atribuído a Saramago, contudo, filho é empréstimo. Uma hora eles irão encontrar seus próprios caminhos. Retomando Bert, e tendo isto em perspectiva, valeria a pena brigar e eventualmente causar tanto a dor um a outro, assim como a Henry? Todavia, como aponta o filme, Bert foi apenas o primeiro advogado de Charlie. Também, no meio do turbilhão, não é fácil pedir para que os envolvidos enxerguem além. A transformação de um relacionamento traz dores e alívios. É preciso que as pessoas o experimentem. Pode ser que mesmo após o processo, demorem para se transformar. Mas algo inescapavelmente muda. E isso é o que este belo filme nos faz lembrar.

    Por Aureo Toledo


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Taty Ferreira

Blogueira

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Olar bandiputo!!!

Natural de Araxá/MG, tem 30 anos, é blogueira, youtuber, empresária, escritora, modelo, atriz e mentirosa. Produz conteúdo para a internet desde 2009 e ama o fato de poder trabalhar usando pijama. Tem uma missão de que é lembrar as mulheres de depilarem seus bigodes. Você, mulher, já depilou seu bigode essa semana?